Ao iniciar o tempo de preparação para o Natal, proponho uma reflexão, apresentando um pouco da sólida doutrina da Igreja Católica sobre Jesus Cristo, confrontando com algumas atitudes da prática cristã presentes na atualidade.
Na doutrina:
Natal é data que comemoramos a encarnação de Jesus.
A Encarnação é a unidade inconfundível e imutável, indivisível e inseparável de Deus e do homem num ou no mesmo Jesus Cristo, ficando Deus sempre Deus e o homem radicalmente homem. Jesus foi aquela criatura que Deus quis e criou assim que pudesse existir totalmente em Deus de tal forma que quanto mais fosse unida a Deus, mais se tornasse ela mesma, isto é: homem.
O Filho de Deus fez-se homem, para nos fazer participar de sua filiação divina; nós nos tornamos filhos no Filho, participando de sua imortalidade e incorruptibilidade.
Jesus se torna um ser humano real. Viveu e morreu nesta terra. Tinha as limitações humanas, ou seja, sabia o que era fome, sede, alegria e dor no corpo e na alma, o que é rir e chorar; sentiu cansaço, tentação e estrema angústia mortal. Ele é inteiramente um de nós, nosso irmão, em tudo semelhante a nós, menos no pecado, isto é, sem ruptura com Deus. Diz o documento Gaudium et Spes: "Por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo homem" (n. 22/265).
Ele nasceu de uma mulher, se submeteu a lei (poder que domina todos os seres humanos), para remir os que estavam submetidos à lei. Ele conduziu a uma nova, renovada humanidade.
A diferença de Jesus conosco não deve ser entendida que Jesus foi um “super-homem”. Mas a diferença mostra-se justamente no fato de ele se humilhar, de estar aí para os outros, servindo os outros de maneira libertadora.
No ser humano Jesus, encontramos uma realidade diferente, que nele se manifesta: é um ser humano inteiramente a partir de Deus, que se dá pela ligação de Jesus com Deus como centro interior e fonte de vida. Jesus é dotado de Espírito e portador de Espírito de maneira incomparável e, por isso, está ligado com Deus de maneira particular. Conduzido pelo Espírito, Jesus se dirigiu ao Pai, chamando-O de Abba, cuja tradução significa ‘um termo carinhoso de se chamar de pai’, e podemos, no nosso tempo, traduzir como “papai querido”, ou “paizinho”. Jesus se encarnou, e retratou humanamente o jeito de ser de Deus. E o fez porque é Deus.
Na prática...
Talvez por isso que parece ser tão difícil, em nosso tempo, ser cristão. Parece que nos distanciamos do fato de sermos verdadeiramente humanos, a exemplo de Jesus. Parece ser mais bonito, mais convincente acreditar um “super deus”, para qual, quando preciso de ajuda eu rezo, e espero que, imediatamente seja atendido, como se Deus fosse meu empregado. Que ilusão! Se esse for o nosso cristianismo, certamente é infantil; estamos naquela fase infantil, em que as crianças acreditam em gênio da lâmpada, fada madrinha, etc. Um deus assim já foi morto há muito tempo. Quem quiser saber quando e como que leia Nietzsche. Mas parece que atualmente muitas pessoas ainda o ressuscitam em sua vida.
A proposta de Jesus Cristo é diferente. Não me refiro ao fato que não devemos rezar nas dificuldades. Não! O próprio Jesus pronunciou estas palavras: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). E alivia mesmo. Mas, essas não foram as suas únicas palavras. Aí que está o erro. Nós generalizamos, pegamos só a parte que nos interessa, e esquecemos que o exemplo de Jesus vai além de somente pedir, pedir, pedir. Onde está nosso agradecimento? Onde estão nossas obras? Onde está a nossa confiança em Deus em todas as circunstâncias da vida? Onde está nosso compromisso com o próximo, com a comunidade de fé (Igreja)? Por acaso, não fizemos da Igreja um “atacadista” de graças, onde escolhemos o que queremos, e reclamamos se o produto não estiver de acordo com as nossas exigências?
Muitos dos atuais cristãos o são apenas de nome e número. Menos mal. Pelo menos costumam aparecer na Igreja em ocasiões importantes em sua vida, como batizado, primeira comunhão, casamento, nas missas de corpo presente e de 7º dia, e talvez, no caixão. Suponho que no dia-a-dia, vivam alguns princípios cristãos. Pelo menos, quando estão desesperados, costumam rezar. Já é um bom sinal. Mas tenho minhas dúvidas se somente isso basta. E me permito dizer que, com a cultura ucraniana, que tem princípios cristãos, acontece o mesmo.
Não escrevo isso para nos causar um desânimo, mas para que sirva de ocasião para refletir, a partir de uma visão um pouco negativa, que tipo de cristãos existem. Com certeza, também existem cristãos autênticos, que são grandes exemplos de vida. Alguns mais evidentes, outros ocultos mas não menos dignos; mas estes, geralmente, podemos contá-los nos dedos.
O Natal se aproxima. Preparemo-nos para comemorar o aniversário de Jesus que é o Cristo, o Messias, o Salvador, o Libertador, que mudou o mundo com a sua proposta de amor: “Amai-vos uns aos outros como eu Vos amei” (Jo 15,9). N'Ele está a nossa esperança. Mas não esqueçamos de que isso exige um compromisso: guardar os seus mandamentos. Mas estes mandamentos não são penosos, como disse Jesus: "Meu jugo é suave e meu fardo é leve" (Mt 11, 30). Diz São João: “O amor de Deus consiste em cumprir seus mandamentos, que não são pesados. Todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé!” (I João 5,3-4). Pois isso, vale a pena se comprometer com Deus. E a recompensa de quem permanece sempre com Cristo é muito maior do que aquele que vai a Ele algumas vezes.
Peçamos a iluminação do Espírito Santo, para que possamos abandonar o nosso orgulho e a nossa ignorância, deixando Jesus Cristo nascer em nossos corações e em nossa vida. Assim estaremos de acordo com a finalidade humana, que é estar com Deus.
Mas, lembre-se: é preciso fazer Reino de Deus acontecer. Só pensar não basta. 
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